segunda-feira, 27 de julho de 2015

Do voyerismo político ao ativismo cidadão

Marina Silva durante debate em São Paulo. Fotos: Ivan Gomes
Rede sustentabilidade debate com partido De La Red argentino sobre nova maneira de fazer política

Marina Silva, candidata a presidente da República em 2010 e 2014 e uma das militantes na criação da Rede Sustentabilidade, participou de debate público realizado na noite de quinta-feira (23), no Centro Cultural de São Paulo. Em pauta, a discussão “Democracia e Internet”. O debate foi mediado pelo jornalista Milton Jung e teve participação do jovem argentino Santiago Siri, co-fundador do partido De La Red.

Durante o debate, Siri falou sobre a criação do partido na Argentina e de como a tecnologia tem contribuído para divulgação das ideias. “O partido De La Red é recente [2013] e diferente de tudo que temos na Argentina. Ele surge da necessidade de se buscar e consolidar as ideias e anseios dos indignados através de um SOFTWARE – o Democracy OS [http://democracyos.org] capaz de impactar o sistema político. Após dois anos de sua criação, já participamos do debate político em várias cidades e províncias. Nosso software é livre e usado mesmo na França, México, Espanha, Chile, Índia, Ucrânia. Nossos candidatos se comprometem a lutar pelas decisões definidas por esta ferramenta e não em projetos pessoais”, comentou.

Marina, em sua fala, citou várias vezes a necessidade de “democratizar a democracia”. “Nosso sistema está estagnado na polarização simplista de uma ilusória dualidade. Querem dividir a sociedade entre ‘esquerda e direita’, da mesma forma como pensamos o quente e frio ou o claro e escuro. Nossa realidade local e nacional, sem dúvida, tem tudo a ver com a crise mundial. Vivemos uma profunda crise civilizatória, onde cinco temas conflitam nossa sobrevivência: a crise econômica, a social, a de valores [ética], a política e a mais grave, a crise ambiental”, apontou.

Ela falou também sobre a mudança que a sociedade necessita. “Precisamos de um novo ativismo, um ativismo autoral e não o dirigido por lideranças pessoais passageiras. Estamos no fim da era do poder pelo poder, do lucro estagnado. A crise das lideranças políticas e partidárias ocorrem devido ao surgimento de um novo sujeito político ativo. A política não pode ser só mais do mesmo, da visão autoritária e rígida. Esta forma inadequada de ser não dá conta dos 90% de indignados, precisamos ser protagonistas!”, afirmou Marina.

A militante política também falou que imprensa alavancou o pensamento político no século 18 e sobre a internet. Ela [internet] está sendo uma ferramenta indispensável no processo de mudança. No entanto o uso da tecnologia não pode transformar o cidadão indignado num ‘voyeur da cidadania’ que usa o Facebook como válvula de escape. A tecnologia pode fazer as pessoas participarem e serem transformadoras, cidadãos praticantes”, completa Marina.

Ari Hauck com Marina Silva: ambos militantes para criação
da Rede Sustentabilidade
A ex-presidenciável falou também sobre a criação da Rede Sustentabilidade que deve ser liberada no início de agosto e ser um caminho para futuras mudanças. “Não somos a resposta pronta para atual crise, mas debatemos conjuntamente um caminho para a transição. Precisamos todos entender também que a ‘democracia é uma ideia imperfeita para um mundo imperfeito’”, argumentou. “Uma nova maneira de pensar a política é necessária para este momento”.

ARI HAUCK

Militando na criação da Rede Sustentabilidade desde 2010, o vice-prefeito de Itatiba, Ari Hauck, o dr. Ari (sem partido) acompanhou atentamente o debate. Ele falou de sua impressão sobre as ideias apresentadas.

Blog: Qual sua opinião sobre o debate?
Dr. Ari Hauck: Estamos vendo a indignação tomar conta dos eleitores e ao mesmo tempo uma total indiferença do sistema político, como se os políticos, mesmo nossos vereadores, vivessem em outro planeta. E compreensivamente vemos um esgotamento da participação social. As pessoas não têm tempo de saírem de si mesmas, seus problemas e inseguranças são imensos. Muitos perdem a esperança num mundo melhor. No entanto a indignação e o desejo do mais e melhor são irresistíveis. O debate mostrou que estes fatos não ocorrem apenas no Brasil. O mundo todo vive uma crise civilizatória, uma crise ética, como diz Marina Silva.

BO: debate trouxe algo novo?
AH: Sem dúvida, só o fato de vermos estes jovens na Argentina traçarem seu próprio partido sem caciques e curiosamente com o mesmo nome Rede, já aponta para novas oportunidades. No sábado também participei do debate ‘Brasil em crise’ do PSOL onde Luciana Genro propõem uma união de partidos e movimentos contra o retorno à barbárie da ‘bancada medievalista’. Existe um consenso de que a crise econômica internacional deve ser superada mantendo-se os privilégios do grande capital às custas da flexibilização dos direitos sociais. A este esquema o PT [Partido dos Trabalhadores] se subordinou através do ajuste econômico [para as classes média e baixa]. Mas é um grande equívoco centrar toda a culpa no PT e deixar o PMDB e o PSDB à vontade. Todos os culpados devem pagar por seus crimes, sejam de qual partido forem.

Dr. Ari anota principais temas durante debate
B: Como o senhor vê o uso da tecnologia para fazer política?
AH: Da mesma forma que a imprensa impulsionou as mudanças políticas no século 18, a Internet se apresenta como uma nova ferramenta de informação e de conscientização. A dúvida é se o voyeurismo do ‘face’ vai se transformar em ativismo cidadão.

B: O que o senhor pensa sobre a ideia de Marina em “democratizar a democracia”?

AH: É comum as bandeiras de justiça e igualdade de direitos serem desfraldadas por oportunistas. Até os golpistas de 64 se diziam defender a democracia. Acho que temos que deixar claro o que queremos. Para isso é importante buscar novos caminhos de participação com responsabilidade social. Democratizar para uma melhor qualidade de vida e oportunidades para todos.

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