Fotos: Ivan Gomes
Segundo Hauck, a denúncia que resultou no processo
trabalhista teria sido feita por um servidor da prefeitura em 2008. Devido às
críticas recebidas, o vice-prefeito comentou sobre o assunto e explicou o que
ocorreu.
Blog: Ari, qual o
teor da denúncia que o senhor fez ao MP?
Ari Hauck: Desde
a primeira eleição, quando iniciei os trabalhos na Secretaria da Saúde em 2009,
notei a necessidade de reformulação do contrato com a Santa Casa. Isto foi
levado ao secretário [Luiz Gonçalves Simões] e ao prefeito [João Fattori PSDB]
diversas vezes. Em 2010 ocorreu uma intervenção do MP no hospital Cândido
Ferreira, em Campinas, que resultou no rompimento do convênio da prefeitura
daquele município e demissão de todos os funcionários. O fato ocorrido por lá
foi mais um alerta sobre o problema que enfrentaríamos. Em 2012, recebi estudo
da Fundação Getúlio Vargas que demonstrava a irregularidade do convênio da
prefeitura com a Santa Casa para administração do PSF (Programa de Saúde da
Família). Só que naquele ano, a situação no município estava ainda mais grave
devido a incorporação das ações no Caps AD [Centro de Apoio Psicológico e
Social – Álcool e Drogas] e Caps II não previstas no convênio. Mesmo alertados,
os gestores não adotaram providências e àquela época levei o fato ao
conhecimento do MP até para salvaguardar minhas responsabilidades, pois era o
coordenador do PSF.
“Fiz a denúncia devido a uma questão ideológica, como consciência social e por obrigação como vice-prefeito, pois tenho que zelar por uma administração transparente e honesta”
B: Quais são as
irregularidades no convênio?
AH: Legalmente o
convênio deveria ser semelhante ao da UPA [Unidade de Pronto Atendimento], uma
gestão de serviços. No entanto, essa gestão era feita diretamente pelo
secretário e a Santa Casa unicamente se prestava para elaboração da folha de
pagamento, ou seja, uma terceirização de mão de obra. Ocorre que esta
terceirização passou a ser usada para suprir deficiências de profissionais de
outras áreas da saúde onde deveriam ser supridas por concurso público. Com
isso, se configura uma burla na legislação da administração pública, algo que
não poderia concordar, daí repeti a denúncia em 2015, em março, uma vez que o
MP estaria preocupado com a ocupação de cargos sem ocorrência de concurso. Como
autoridade, como vice-prefeito, não posso me omitir, por isso e por outros
motivos pedi demissão do cargo de coordenador. Mantive apenas a função de
médico e oficializei a ruptura política com o prefeito Fattori e o secretário
Simões.
AH: A exigência
atual de remodelação do convênio partiu do Ministério do Trabalho a partir da
denúncia de 2008, da qual só fui ter conhecimento recentemente. A denúncia que
levei ainda está em tramitação e a unificação delas depende de um entendimento
da Justiça.
B: Por que a situação
chegou ao ponto em que está? Poderia ter sido evitada?
AH: É bom que
fique claro que por diversas vezes propus que novos funcionários para os PSFs e
posteriormente para os Caps, fossem contratados por concurso público municipal
e não como terceirizados. Havia inclusive uma folga na lei de responsabilidade
fiscal que permitiria essa inclusão. No entanto, jamais fui ouvido e a situação
se agravou com a contratação de muitos profissionais sem processo seletivo.
Recentemente soube por meio do Sindicato dos Servidores da existência de um TAC
[Termo de Ajuste de Conduta] assinado pelo então prefeito José Roberto Fumach,
em novembro de 2008, época em que estávamos na transição de governo e da qual
não fui informado em momento algum, mas com certeza deve ter tramitado nas instâncias
da administração municipal. O problema se agravou por esta omissão.
B: Haverá demissão de
médicos e enfermeiros? Como ficará o atendimento à população?
AH: Isso depende
da proposta do secretário [Simões] e de sua aceitação pelo Ministério do
Trabalho. Há grande probabilidade de se reformular totalmente o convênio e com
isso até termos a necessidade da licitação de um gestor para o PSF que poderá
não ser a Santa Casa. Acredito que o ideal é tudo ser feito pela prefeitura
dentro de seu quadro funcional onde os atuais funcionários poderão ser
efetivados após serem aprovados em concurso público. Seria
uma perda inestimável que os bons funcionários do PSF não sejam aproveitados.
Espero que na seleção seja valorizado o currículo onde possa constar experiência
e cursos de capacitação.
Aqueles que não participarem das provas ou forem reprovados deverão ser demitidos, até mesmo eu se fosse o caso.
Aqueles que não participarem das provas ou forem reprovados deverão ser demitidos, até mesmo eu se fosse o caso.
B: Em caso de
demissão, até o senhor como vice pode ser atingido?
AH: Sim, pois sou
contratado como médico do PSF pela Santa Casa tendo optado por não receber como
vice-prefeito desde meu primeiro dia de mandato. Desta forma estou sujeito,
como qualquer um, as mesmas consequências. Fiz a denúncia devido a uma questão
ideológica, como consciência social e por obrigação como vice-prefeito, pois
tenho que zelar por uma administração transparente e honesta.
“Renunciar é fazer o jogo de quem pretende galgar posições e ficar cada vez mais próximo do poder”
B: As críticas feitas
pelos parlamentares têm fundamento ou o senhor sente que foi algo político,
devido à proximidade das eleições?
AH: Ficou muito
claro na sessão de quarta-feira [1] que havia um teatro montado, pois os
vereadores tinham em mãos cópias dos processos, algo que eu mesmo não possuía.
Daí fizeram diversas acusações sabendo que nada daquilo tinha a ver comigo e
sim com a má administração municipal, que caracteriza improbidade. É sempre a
mesma história, ‘condenar a vítima para livrar o culpado’. Ninguém chuta ‘cachorro
morto’! Alguém deve estar preocupado com a possibilidade que eu seja candidato.
AH: Tenho que
admitir que errei em apoiar o prefeito Fattori. Fui ético e fiel até o último
instante onde ficou patente que nosso plano de governo não seria executado,
motivo pelo qual rompi definitivamente com a administração. Quanto a oposição,
não tenho compromissos com nenhum dos parlamentares embora respeite e até tenha
defendido junto ao prefeito, posições corretas por eles apresentadas. Não sou
vice-prefeito da situação. Sou vice-prefeito da cidade de Itatiba, com posições
independentes dentro de uma ideologia de justiça social, transparência e
participação dos cidadãos. Sou contrário ao centralismo, autoritarismo e
personalismo. Não admito vinganças como método de trabalho e administração que
só pense eleitoralmente.
B: Se o senhor discorda
da atual administração, porque não renunciou?
AH: Diariamente
sou cobrado por onde passo pelas pessoas que dizem que votaram em mim e não no
Fattori. Elas esperam de mim uma posição frente a má administração. Devido ao
meu compromisso com essas pessoas não renuncio. Embora o vice-prefeito não
tenha nenhum poder e, de fato, não tenho nem gabinete para atender a população
e nem cartão de visita, eu só poderia ter alguma atuação caso o prefeito
determine isso, só posso fazer algo quando é determinado pelo prefeito, a lei
não me dá chance de ter qualquer tipo de poder. Nesta situação, renunciar é
fazer o jogo de quem pretende galgar posições e ficar cada vez mais próximo do
poder.
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